Segunda-feira de ressaca. Ressaca mental. O natal faz isso com a gente. Não com toda a gente, mas com aquela gente que se pergunta o porquê de mais essa babaquisse. Enfim, era segunda-feira. Era pós natal. Era um dia qualquer.
Meu cartão de crédito havia estourado e por isso arranjei um emprego com meu tio. Ele era caminhoneiro. Visitaríamos algumas cidades do Sul de Minas. O clima bucólico das estradas de Minas me agrada. As montanhas, as plantações, os gados, as galinhas, o cheiro de merda... Eu tinha duas horas de sono e uma empolgação tão grande quanto o tempo que dormi.
Fizemos as entregas em ordem geográfica, tendo como referência a cidade pela qual saímos: Pouso Alegre. Grande cidade. Não era uma cidade grande, mas era grande o bastante para me dar o que eu queria no pouco tempo que passava por lá. E da referência, depois de várias visitas, chegamos a Pouso Alto e partiríamos para um bairro rural do município.
A chuva decorava nosso dia. O clima cinzento em meio as serras que atravessávamos numa estrada de terra tão rústica como meu humor, me deixava ainda mais puto. Não gosto de chuva. Mas acho que nada me alegraria aquele momento.
Meu tio é daqueles que fala pouco. E do pouco que fala você ainda pode filtrar bem o que diz. Nesse agradável momento, fazia a propaganda de uma loira que nos atenderia. Começou mal. "A primeira vez que fui lá achei ela meio estranha. Ela é grande, sabe? Meio machona... fortinha... mas tem um rosto bonito. Até pensei besteira da moça, mas a voz dela é de menina. Ela tem a voz de menina. Essa eu deixaria fazer uma chupetinha! Haha... Não daria em cima dela, mas se ela oferecesse..."
Não tive esperança nenhuma, mas confesso que meu sub consciente, buscando algo parecido com a perfeição - porque é sempre isso que fazemos -, imaginou algo como uma loira gostosa de um metro e oitenta, bunda e peitos fartos, uma coxa tão grossa quanto sua educação, sua cor um pouco rosada pelo ardente sol da roça, olhar tímido, cabelos compridos e levemente encaracolados.
A viagem continuou. Barro, grama, árvores, vacas, cachorros, passarinhos, cercas, rios, pontes, estrada, mata-burros, nuvens, casas, carros, sono... Merda! Devo ter cochilado. Acordo e a primeira coisa que vejo é um pingo de chuva escorrer pelo parabrisas do caminhão. A segunda é a loira. Realmente grande. Acho que chegamos.
Saio do caminhão para ajudar a manobra para estacionar. Depois, vou levar a nota fiscal a alguém. O local era um bar. Sujo. No meio do nada. Um grupo de caras mal encarados me aponta a loira como a responsável pela nota. Ela limpava o chão do bar, no que seria uma varanda com uma mesa mal feita de sinuca. O som era alto e tocava uma música filha da puta de ruim. Dessas que não se ouve nada, só servem para manter um ritmo para as vagabundas mexerem o rabo.
Chego até ela e... meu cacete! Meu tio acertou no grande, forte e estranha, só esqueceu de mencionar a barba mal feita, o gogó e os ombros largos. Era um ser bizarro, grande mesmo, gordo, desengonçado, assustador, de roupas curtas e uma voz que tentava, inutilmente, clonar a de uma menina. Tinha olhos claros e perdidos em algum lugar. Perdidos na busca de algum lugar. Na busca de alguém.
Tive pena. Mas tive medo antes. O homem é medíocre até nos seus atos de piedade. Eu teria ateado fogo naquela fera, num primeiro instante, e depois senti algo próximo (ou distante, porém parecido) à compaixão. Quis falar com ela (e), não por ser parte do espetáculo do diferente, mas por ser simplesmente diferente. Eu tinha a consciência de encará-la (o) como um ser igual a qualquer outro, independendo suas escolhas. Mas insistia em procurar suas diferenças com o mundo. Não que eu goste do mundo. É que sempre nos impuseram um molde, e por mais que eu fuja dele, os que fojem dele em outra direção, também serão destaque.
Terminei a entrega com a cabeça baixa. Tentei evitar qualquer contato com ela (e). Vamos embora. Não falei mais do que "onde ponho a mercadoria?". No caminho, penso nos pais da (o) moça (o). Duas cabeças tão conservadoras quanto o próprio conservadorismo. Gente religiosa, simples, sistemática. O quanto reprimiram, humilharam, maltrataram o filho (a). O quanto fizeram para que isso não se fizesse. O quanto lutaram. O quanto, também, sofreram. E nada adiantou. O indivíduo se fez como ser individual. Como ele é. Como nós somos. Únicos.
Eu vou embora, e a última cena no bar que vejo é a grande loira acertar a maquiagem no espelho do balcão. Tentando ser mulher. E de certa forma, por mais que grosseira, sendo.
você chegou lá, meu amigo, segura assim como ta. o único prazer que eu senti hoje foi ler esse conto. bem maneiro.
ResponderExcluirAgradeço o elogio. O prazer é recíproco por agradar. Valeu, brow.
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